Características Sociais, Ambientais e Operacionais das Estações de Tratamento de Água no Brasil

Ao longo de 3 meses, visitei diversas Estações de Tratamento de Água (ETAs) ao longo do Rio Doce (MG e ES) com o intuito de avaliar suas estruturas e operação e propor melhorias para que estas estejam preparadas para o período chuvoso, época em que o nível do rio sobe e provoca recorrentes alagamentos, além de poder promover novo carreamento de materiais das barragens de Mariana – uma vez que o desastre, ocorrido em novembro de 2015, ainda gera preocupação para o abastecimento de água nas cidades afetadas.
A primeira impressão que tive foi “Como é que essas ETAs conseguem tratar a água? ”. Não porque a água estava sem condições de tratamento, mas pelas dificuldades já presentes nas estações. Os maiores desafios dessas ETAs estão na sua estrutura – com construções de visível possibilidade de colapso e erros de projeto, na sua operação – por falta de conhecimento e/ou descuido dos operadores, e, principalmente, pela falta de vontade política nas estações operadas pelo poder público.
Lidar com uma população que ficou dias sem água, que perdeu suas casas e até familiares e que até hoje aguarda algum tipo de compensação, é desafiador. Como conseguiriam confiar numa água que foi sujeita à resíduos de mineração? Como explicar que as ETAs conseguem tratar essa água, atingindo os padrões de potabilidade (referentes à Portaria 2914/2011)? Não podem ser culpados por não terem conhecimento técnico. Infelizmente ainda existem aqueles que tiram vantagem dessa situação fazendo a população acreditar em riscos inexistentes, o que freia a implementação de melhorias e soluções mais sustentáveis.
Estas soluções sustentáveis são compostas por práticas em prol do meio ambiente, como a disposição de resíduos (lodo) gerados durante o tratamento de água. No Estado de Minas Gerais a Deliberação Normativa 90/2005, na qual define-se que resíduos sólidos industriais, incluindo lodos de ETAs, são objeto de controle específico em processos de licenciamento ambiental. Nesse sentido, suas particularidades tornam inviável o seu lançamento na rede pública de esgoto ou em corpos d’água ou exigem para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível. Foi observado, porém, que tal deliberação não foi adotada, uma vez que a disposição do lodo é realizada in natura.
Outro grande problema são as ETAs que estão localizadas muito próximo ao esgoto que é despejado diretamente no rio. É muito provável que parte desse esgoto esteja sendo captado, colocando em questão a qualidade das águas, uma vez que parâmetros de carga orgânica e concentração bacteriológica influem diretamente no processo. Ainda sobre os aspectos ambientais, em diversas estações não há um adequado espaço para armazenamento dos químicos utilizados. Qualquer vazamento pode se tornar uma problemática tanto para o meio ambiente quanto para as pessoas que possam vir a entrar em contato com os mesmos.
O uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) é praticamente inexistente. Houve até operadores sem luvas e utilizando chinelos para manusear químicos altamente concentrados. Em parte dos casos, a própria empresa não fornece os equipamentos, em outros o próprio funcionário não faz questão de utilizá-los. Sendo assim, uma rigorosa inspeção deve ser realizada para exigir que as empresas forneçam os equipamentos em quantidades suficientes e que instruam seus funcionários para o uso dos mesmos.
As ETAs operadas por parcerias público-privadas, que são a minoria, se sobressaíram quando comparadas com aquelas gerenciadas pelo poder público. Contam com laboratórios melhor equipados e funcionários mais capacitados. As condições de algumas ETAs gerenciadas pelo poder público são tão precárias que materiais/equipamentos/insumos necessários para o funcionamento básico das estações não são repostos como deveriam. Adicionalmente, foi relatado que melhorias sugeridas pelos operadores tem uma grande dificuldade de serem implementadas pelos gestores das estações. E, novamente, quem sofre com isso é a população, que usa a água proveniente das ETAs somente para lavar a casa e tomar banho e compram água mineral para o próprio consumo, para cozinhar e limpar os alimentos – já que a maioria não possui instrução e não acredita na eficácia do tratamento.
Portanto, só possível uma aproximação maior com a população através de palestras e programas sociais que visem a educação ambiental, assim como um maior conhecimento técnico dos processos aplicados nas ETAs. A capacitação dos operadores também se faz necessária para aprimorar o processo do tratamento e garantir respostas eficientes em situações de emergência. Neste sentido, buscamos ao máximo identificar as deficiências de cada estação para apresentar soluções técnica, econômica e ambientalmente viáveis.

 

Italo Caldas Orlando
Analista Ambiental
NewFields Brasil

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